Entrevista

Jovens de hoje utilizam o blogue como um modo de se puderem esconder e revelar toda a verdade, sem serem julgados, mas no entanto, nem tudo são rosas. Se não nos revelamos na vida real o que nos leva a desabafar no mundo virtual? Procuramos meios de expressão, procuramos pessoas que nos ouçam e que nos critiquem realmente, e não queremos aquelas que passam a sua vida a falar nelas e nós a ouvir, ou o simples actos de ceder o que quer que seja.
Aqui vai a surpresa...
Quantas vezes já não leram um blogue e não temos curiosidade de saber quem está por detrás dele? Saber que temos a oportunidade de conversar sobre as mesmas ideias, pois bem, decidi fazê-lo, falei com uma bloguista que eu sigo e que digo que é revolucionária, uma bissexual que pensa para o além do normal, mas que revela que se esconde, quer ajudar a mudar as pessoas uma a uma. Antes de mais agradeço e revelo que lá por estarmos em anónimo não significa que não houvesse um nervosismo miudinho. Mantemos ambas o anonimato. Se querem saber mais vão ter que ler o seu blogue do qual eu recomendo.  http://verdadeiromundo.blogspot.com/

 Queria tirar uma dúvida se possível?
B': Sim, claro.

 És bissexual?
B': Pode-se dizer que sim. Digamos que deixei de pensar nisso, se sou homossexual, heterossexual, ou bissexual. Neste momento namoro com uma rapariga, que amo, mas isso não quer dizer que não me possa sentir atraída por rapazes.
Eu passei muitos anos da minha vida a achar que era heterossexual, sem colocar isso em causa. Definia-me como heterossexual. Outra hipótese nem me passava pela cabeça. De repente vejo tudo isso mudar e começo a definir-me como homossexual.
Depois vi que isso dos rótulos é apenas limitar-nos, e sendo eu uma pessoa que acho que devemos ser livres para amarmos quem quisermos, quem gostarmos, não me vou a mim limitar a gostar de um só tipo de pessoas. Para todos os efeitos, sou bissexual, sim.

 A palavra blogue para ti significa...
B': Um sitio onde podemos escrever livremente e sem medos aquilo que pensamos, sem sofrer represálias por isso.
 
 Foges da realidade?
B': Na minha vida? Interiormente, sim, bastante. Sou muito utópica. Exteriormente, tento agir como todas as outras pessoas, embora seja difícil quando quero mudar tanta coisa que se passa à minha volta. Imagino um mundo diferente, e é-me difícil viver neste.

 No blogue já te surgiram anónimos preconceituosos?
B': Embora já tenha visto em vários blogues comentários preconceituosos, no meu nunca aconteceu isso. Se acontecesse, o comentário seria publicado e respondido naturalmente.

 Nunca receaste que pudesses ser ignorada no blogue?
B': Claro que é bom ter visitantes, e comentários, e seguidores no meu blogue. Gosto que as pessoas gostem do que escrevo, e que se identifiquem, até que discordem e possamos debater assuntos. E não gostaria que acontecesse o contrário, ser, de certa forma, ignorada. No entanto criei um blogue para poder escrever aquilo que quero, e não aquilo que as outras pessoas querem.

 Mas gostas que te critiquem? Ou criastes para poderes desabafar?
B': Criei-o para poder dizer o que sinto. Na vida real estou constantemente a agir como os outros querem, no blogue posso dizer aquilo que realmente penso. Se as pessoas não gostarem, claro que podem criticar, desde que educadamente, até porque se não quisesse tirava os comentários. O debate é sempre bom para melhorar e fortalecer ideias. É sempre positivo, desde que seja feito como deve de ser.

 Preferes manter o anonimato de ti e de quem te rodeia, por teres medo de ser descoberta ou para manter o suspense?
B': Não é bem por medo de ser descoberta, é apenas uma forma de me sentir protegida, de poder dizer aquilo que quero dizer sem os outros comentarem-me pela idade, género, orientação sexual, raça... Quero que me leiam por ter certas opiniões, e não por uma imagem. Assim sinto-me melhor para escrever.

 Mundo virtual ou mundo real?
B': Vou-me fortalecendo no mundo virtual, para depois me sentir melhor a defender as minhas opiniões no mundo real.
É uma espécie de treino, de preparação. Por isso é que é bom o haver debate no blogue, para me preparar no mundo cá fora. Até agora tem sido positivo.

 Com que idade te manifestaste?
B': Descobri que também gostava de raparigas por volta dos 14/15 anos.

 Acreditas que a internet seja uma boa forma para espalhar a palavra?
B': Claro que sim. A Internet possibilita chegar ao outro lado do mundo, estando sentada na secretária. Assim, podemos transmitir mensagens por todo o mundo, numa questão de segundos.

 Achas que a juventude de hoje já têm os valores suficientes para se ter um pais justo?
B': Sim e não. Os jovens individualmente, tem esses valores. Em grupo, parece que os perdem, que agem em manadas irracionais. Se quiser, a juventude de hoje poderá realizar grandes feitos. Tem consciência do aquecimento global, e de problemas como xenofobia. Apenas tem de procurar esses valores dentro de si, e agir.

 Como te sentias a "enganar" vá mentir mas com lógica, os teus próximos?
B': Mal, pessimamente. Odeio mentir, ainda por cima a pessoas tão importantes na minha vida, e sobre um assunto tão importante na minha vida. Ninguém devia ter de mentir sobre quem é, é sempre mau.

 Achas que os media deviam de abordar estes assuntos? Sabes que essas revistas têm rubricas do tipo : maneiras de engatar o tal rapaz? Achas que seria útil ou não?
B': Claro. Os media tem muita força nas mentalidades da sociedade actual. O recente caso dos morangos com açúcar, que voltaram atrás com a decisão de passarem um beijo entre dois rapazes, tem consequências muito graves na vida dos jovens homossexuais.
Os media deviam de pensar nisso, e verem que tem uma oportunidade de quebrar barreiras dos preconceitos.

  Afirmas a expressão: santa de corpo, selvagens de pensamento?
B': É.... infelizmente....

 Sentes que os homossexuais têm-se de destacar para ser ouvidos?
B': Infelizmente neste momento ainda têm. Alguém que seja homossexual e faça a sua vida normalmente sem esconder isso, tem de ser muito bom a fazer o que faz, se não é logo posto de parte. É verdade que acontece cada vez menos, mas ainda há áreas em que é frequente. A homofobia nestes casos é como o racismo. Na teoria são muito correctos, mas na prática as coisas não são assim tão claras.

 Sentes que te tens esconder para ser aceite na sociedade?
B': Sinto. Provavelmente não tenho de me esconder, mas o medo de não ser aceite é mais forte que isso. Aos poucos e poucos vou revelando quem realmente sou, mas se não sentisse essa necessidade para ser aceite, faria a minha vida normalmente, até porque sou uma pessoa normal, igual a todas as outras. Não estou a dizer que a sociedade não me "aceitaria", mas o medo de correr esse risco ainda é grande.

A disciplina educação sexual mudará alguma coisa?
B': Claro, na minha opinião a disciplina de educação sexual terá muitos benefícios. Entre eles a destruição destes mitos e preconceitos em relação à homossexualidade. Fará com que as pessoas vejam a homossexualidade como uma coisa tão banal como os heterossexuais. Assim como destruirá muitos outros tabus em relação à sexualidade.

 Deviam de apostar na cultura?
B': Sim, mas de uma forma natural. Novelas juvenis deviam mostrar casais de pessoas do mesmo sexo, uma vez que tentam representar a realidade, os filmes também são uma boa forma. Todas áreas em contacto com as populações são boas para apostar em quebrar preconceitos e formar uma sociedade mais pluralista.
 
 O que sentes em relação aqueles que te julgam?
B': Sinto pena por serem assim. Odiarem com tantas forças outro ser humano por puro preconceito, só me faz ter pena desses, porque são pessoas com graves problemas.

 Sabendo que a tua família é unida deu-te mais à vontade ou mais receio? Tinhas medo de os desiludir, ou que estes te abandonassem?
B': Saber que a minha família é unida deu-me mais à vontade de deixar de esconder quem sou. Sempre me deram um mundo perfeito, e achei que ia continuar a ser assim. Por isso nunca tive medo que me abandonassem, não do género expulsarem-me de casa. E não tinha medo de os desiludir porque eu não estou a fazer mal nenhum, eu sou quem sou e tenho orgulho em ser quem sou.
Tinha um grande medo que eles me desiludissem. Que eles reagissem como se eu fosse uma desilusão.

 Acreditas que a tua mãe já soubesse?
B': Acredito que o meu pai já soubesse. Ele já me tinha visto com a mulher que amo, e por muito boa que eu consiga mentir, não consigo fingir que não amo alguém, há sinais como o olhar impossíveis de fingir. A minha mãe nunca a tinha visto, por isso só desconfiava que eu namorava com alguém.




Agradeço novamente e se há dúvidas faz favor de tirar...

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